LATIDOS AO ENTARDECER

     

A chegada de um presente

 

Nossa história começa no dia 4 de julho de 2007.

Naquele dia uma senhora amiga da família chegou na

nossa casa em companhia do seu filho, que trazia nos

braços algo pequeninho para nos dar de presente. Era

uma cachorrinha de dois meses de idade, pretinha

com patinhas e peito brancos, muito bonitinha. Ouviram

falar que estavamos pensando em adotar um cão e,

embora eu estivesse indeciso, lembrei de quando

tinhamos um pequinês e um pastor alemão há quinze

anos, e achei que se deve estar preparado para não

sofrer depois.

Mas diz um ditado que "é o cãozinho que adota o dono".

E foi o que deu para sentir quando ele foi colocado no chão

e já deu um desfilada com um trotezinho encantador que

arrancou sorrisos dos presentes. Minha mulher, mais

talentosa para a situação, logo tomou-o nos braços.

E ele ficou na nossa casa, como parecia seu desejo.

 

As primeiras horas no novo lar

 

Eram duas horas da tarde. Ràpidamente foi improvisado

um canto para ela se acomodar enquanto eram concluídas

as tarefas do dia. Mesmo que as coisas ainda estivessem

meio caminhando como se a adoção ainda dependesse da

nossa filha que volta do serviço no final do dia, nem é

preciso dizer, já estava decidido, ela já tinha tomado conta

dos nossos corações e, ela ficou para sempre.

Ganhou nome, Bebel, durante a tarde, já brincou, e até

deu uns pequenos latidos e mordidinhas.

 

 

A primeira noite no novo lar

 

Mas enquanto de dia tudo é festa, à noite a coisa é

diferente e imaginem, para uma criaturazinha destas que

sentiu a mãe sumir, as irmãs sumirem, pode achar que,

no meio da escuridão, vai aparecer o boi da cara preta,

o bicho papão, cobra gigante que come cachorrinho,etc.

Começaram as providências para ela ter o seu canto

dentro de casa. Pela experiência com outros cães de

outrora, resolvemos adotar critérios parecidos. Da cozinha

para lá, não passar de uma linha imaginária entre a

cozinha e a área íntima. "Cachorro é cachorro", frase que

muito se ouve. Mas o destino me deu oportunidade de sair

dessa ignorância.

Mas enquanto a inteligência não despontava, foi

improvisado um travesseiro na cozinha, num canto bastante aconchegante e,

segundo as recomendações de "meio entendidos", deixar um rádio ligado

nos primeiros tempos para simular companhia.

 

Todos foram se recolher e eu fiquei assistindo TV

tentando ver o andamento das novas providências.

Não demorou e aquela coisinha veio ao meu encontro

e se deitou no tapete debaixo das minhas pernas esticadas

mais altas no "pooff". Minha filha, passando pela sala para

ir ao banheiro, quando viu aquela situação, e também até

então solidária ao plano de discriminação da espécie canina, exclamou: "mas o que...?".

 

Eu já estava ficando rápido em dúvida com essas

medidas. Assumindo uma postura de paciência, continuei assistindo TV. Mas pensei: "esta noite talvez será uma

daquelas já conhecidas" em que a gente passa a noite meio

em claro". Fiquei meio dividido e pensei: "vou para cama e

deixo ela dormindo aqui".

Não funcionou, ela ameaçou vir junto. Sem coragem de

decidir por minha conta, temendo a desaprovação da família, resolvi pedir socorro à minha mulher.

 

Minha mulher recolocou ela na cozinha e construiu um

pequeno muro de papelão de, aproximadamente, 30 cm de

altura. E lá fui eu finalmente deitar, mas ainda meio

preocupado, metade de mim descansando e outra metade

meio apreensivo.

 

Mas para quem nasceu para ser vencedor não existem

muros intransponíveis. Enquanto eu estava quase

convencido de que tudo estava OK e posso relaxar,

escutou-se uns arranhões de patinhas na porta fechada do

nosso dormitório, acompanhados de pequenos gemidos.

Fomos vencidos, não tivemos outra alternativa a não ser

deixar ela entrar. Ela se contentou em dormir em cima de

algumas roupas que estavam no chão e está até hoje

dormindo conosco.

 

Não dá um "piu" durante a noite, é como uma criança

muito comportada, mas não resiste quando alguém está

chegando, mesmo de madrugada. Ela tem que receber.

E eu penso que se ela não tivesse persistido talvez sua

sorte seria outra. Sua força de vontade definiu seu destino.

 

Uma mudança

 

"Um animalzinho pode mudar nossa cabeça e nosso coração!"

 

Assim como muita coisa na vida que a gente pensa que conhece ou entende,

eu pensei que sabia mais ou menos o que era um cachorro.

 

Depois de sessenta anos, descubro que cada vez

aprendo mais e a vida será curta para entender tudo que

quero entender. Uma coisa simples como um animal

doméstico pode nos ensinar muita coisa. Os cachorros que

a gente tinha no passado, a gente tratava apenas como

cachorros, na expressão da palavra. Ao pequinês se

impunha limitações que ele aceitava e lá fora, no quintal,

ficava o pastor alemão e, no seu canil, ninguém sabia como

era passar uma noite lá dentro. A gente achava que estava

tudo bem para eles, afinal ganhavam um pratão de comida reforçado cada um de

acordo com seu tamanho.

 

Hoje sinto que talvez faltava para eles uma coisa muito importante: o calor do

seu grande amigo, o amigo homem.

Talvez aquele senhor estrangeiro de visita à nossa casa

na época tenha enxergado o que eu não enxergava, quando

viu o "grandão" no jardim , separado de nós por uma grade :

"Why is he locked, they are so kind!" (Porque ele está

trancado, eles são tão amáveis). Eu achava que ele não

estava trancado pois tinha todo jardim à disposição dele.

 

Agora tento entender melhor o mundo animal. E pelo

nosso animalzinho, lógico, estou apaixonadíssimo.

Reconheço que às vezes tenho uma dedicação e cuidado

que beiram à uma espécie de paranóia, mas deixe estar,

acho tempo para me dedicar. E como quando no começo

da vida em família, com os filhos pequenos, haja filme para fotografar e filmar.

Cheguei consumir quatro horas de filmagens para um trabalho em DVD,

com os principais momentos do primeiro ano de vida da cachorrinha e não

pude me conter, tive que incluir uma homenagem aos dois

que partiram há quinze anos, o que comoveu bastante a

todos que assistiram o trabalho.

O novo inquilino que hoje ocupa seus lugares, na

verdade não é mais apenas um inquilino, nem cachorro,

mas sim um membro da família.

Coisas menos boas que acontecem na vida tambem

contribuem para fazer a gente ficar um pouco cansado dos

padrões e exigências da sociedade humana.

Antes, quando via na minha rua, senhores de idade, aposentados, levando seu cãozinho para passear, eu

pensava: "puxa vida, mesmo aposentado, tem tanta coisa

útil para fazer, tantos projetos ainda para terminar nesta

última etapa da vida, como eu estou fazendo, com a agenda

cheia, continuação de uma vida de trabalho, e eles perdendo tempo com aqueles vira-latas".

 

A inteligência dos animais.

 

Eu penso que o ser humano subestima a inteligência dos

animais.

Quem não quer ver, não vê o que não quer ver. Enquanto

se está "correndo atrás da máquina" da vida moderna, não

há condições para entender além do nosso cotidiano.

 

Mas se pararmos para pensar, ligarmos uma espécie de "desconfiômetro",

descobriremos coisas que antes não víamos. O ser humano se comunica

com outro através da linguagem falada, principalmente. Isso porque a natureza

nos deu o órgão da fala apropriado para desenvolver

essa combinação de códigos que formam um sentido.

 

Com os nossos órgãos da fala conseguimos formar um

sentido para o semelhante entender o que queremos

expressar. Dentro da própria espécie já existem diferentes situações.

Diferentes tipos de linguagem. Vejam os índios.

O surdo-mudo se comunica também com outros órgãos e

códigos. Os deficientes visuais também.

 

Daí, nas outras espécies também existe a comunicação

entre os semelhantes. Tanto é que quando um cão late o

outro responde com outro latido. Me lembro de um senhor parapsicólogo, numa palestra na TV disse que se dizemos

que o passarinho canta, para nós significa que ele canta,

mas na linguagem dele ele pode estar "xingando".

 

Se nós queremos entender outra espécie, temos que

descer do nosso pedestal e tentar entrar no mundo dela.

Se ligarmos o nosso "desconfiômetro" devemos chegar à conclusão de que também podemos transpor essa barreira

da comunicação com outras espécies. Podemos entender o

que um cão sente, se ele quer nos dizer algo, etc.

 

Pensamos: "cachorro não fala, não se sabe se ele está

com alguma dor". É só reparar nos códigos dele que

acabamos nos comunicando muito.

 

......................................

 

Não sei se existe uma pesquisa sobre se a inteligência

depende tanto do tamanho do cérebro. O cérebro grande

pode até atrapalhar, e parece que, pela lógica, o ser humano

erra mais do que os animais. Pode-se entender isso como

o ser humano tendo livre arbítrio pode sair dos padrões

ideais da moral e do comportamento.

Já os animais são parecidos com uma máquina,

funcionam bastante dentro do padrão projetado pela natureza,

e se um pitbull morde é porque ele foi feito para morder.

 

.............................................

 

Como a Bebel é.

 

A toda hora ela nos surpreende com uma demonstração

de inteligência.

 

- Sua higiene

 

Outro dia, quando a gente pediu para ele embarcar no

carro para viajar, no momento do embarque, deu meia volta

e saiu correndo para o jardim para fazer "xixi" na grama

para não fazer no carro. Em seguida chegou próxima à

porta do carro e deu meia volta de novo e voltou correndo

para a grama do jardim, como se tivesse esquecido mais

alguma coisa. Dito e feito. Ainda faltava o "cocô".

 

....................................

 

As necessidades dentro de casa não são a mínima preocupação. Deixamos com ela.

Faça sol ou faça chuva, ou ela faz na grama ou no jornal colocado dentro de casa,

e, mais uma, bem no meio do jornal, sem escorrer pelas

beiradas, e minha filha fez uma observação que reparou

que ela gosta do jornal colocado bem reto.

 

Houve alguns acidentes de percurso, mas pode-se

concluir que foi motivado por algum "stress". Certa vez ela

estava procurando minha filha o dia inteiro, pois queria

escovar os dentes e passar fio dental, minha filha que é

dentista e muito atarefada naquele dia só voltou no dia

seguinte. Então a Bebel deixou o "cartão de visita" no

tapete do banheiro dela.

 

Sua educação na rua tambem chega a me surpreender,

às vezes. Apesar da gente se prevenir com os acessórios

relativos à higiene no passeio com o animalzinho, muitas

vezes chega quase a ser dispensado. Ela procura sempre

fazer o "cocô" em local onde os humanos não pisam, bem

no cantinho do meio fio da calçada e a rua, de preferência

onde houver mais acúmulo de dejetos vários, vegetação, etc.

 

Outro dia fez de uma maneira inédita. Levantou uma das

patas como se fosse um macho a fazer "xixi" contra o poste, demorou,

e o resultado foi um bolinho de "cocô" colado no

poste, a uns quinze centímetros de altura. Não foi difícil eu

retirá-lo. Outro dia, numa calçada cheia de "mato", ela fez

atráz de uma moitinha.

 

..........................................

 

De madrugada, levantava da caminha e "pedia" para ir lá

fora. Às vezes estava chovendo, então ela fazia as

necessidades no jornal mais afastado da área íntima,

uma coisa em cada montinho de jornal, quando ela era pequena.

Agora passa a noite inteira sem precisar sair.

 

..............................................

 

Quando ela vê alguém escovando dentes, ela chega perto, levanta, coloca as patinhas dianteiras sobre o balcão, cutuca

a gente, num gesto de que também quer escovar os dentes,

passar fio dental, etc...

 

- Não quer estragar nada

 

Quando ela mexeu nas plantinhas da mulher e foi

ligeiramente repreendida, ela sentou num canto e nos olhou. Parecia apenas isso. Mas como já descobri que o animal

não demonstra o sofrimento resolvi pega-la. Ela estava

tremendo muito.

 

...........................................

 

Certa vez, brincando no jardim, nas suas corridas, deu

um susto no meu filho que tinha colocado várias peças

recém pintadas no chão. Pulou por cima, no meio, no lado,

de todo jeito, mas sem tocar em nenhuma, como se

estivesse pulando "amarelinho" onde não pode pisar no

risco.

Foi algo inédito. É uma criança alegre que não quer

estragar nada.

 

................................

 

- Gosta de festas

 

No seu aniversário de um ano, fizemos festa no jardim.

Para ela a festa já começou quando comecei a pendurar

os balões. Os que caiam na sua boca estouravam.

A mulher fez um bolo de ração misturado com carne

moída que ela comeu pela metade e o resto ficou por conta

do vizinho Bob . Foram distribuídos vários tipos de ração

pela grama, pena que não deu tempo para convidar muita

"gente", mas mesmo assim a festa foi noite adentro.

 

...................................

 

E depois de uma festa humana ou canina, aquela

diversão com os balões. Primeiro tentando, com o focinho, encostar no balão que estiver no ar caindo, faz com que

ele seja empurrado de volta para o alto, parecendo um

jogador de futebol demonstrando classe com a bola, assim

por inúmeras vezes até que, num movimento diferente a

bola vai ao chão e é aquele estouro. E quando são vários

balões amarrados, são vários estouros, quase uma

metralhadora, tudo sem medo, rápido e logo olhando em

volta para achar mais balões.

 

Outro dia, com muito vento, o conjunto de balões voou

embora, e ela ficou procurando nos lugares altos do jardim

por um tempinho. Nem falem "onde está o balão" que ela

sai procurando olhando para o alto.

 

...................................

 

- Na hora de comer

 

Às refeições ela age de várias maneiras. À vezes fica

no seu cantinho esperando sua vez, mas às vezes ela

comparece à mesa e "cutuca" a gente no braço como se

quisesse dizer: "Como é, não tem nada para mim?"

 

......................................

 

Seguindo recomendações de ententidos, ela é

contemplada no almoço com aproximadamente 50 por

cento da sua cota diária com carne bovina para satisfazer

sua natureza carnívora e, no início da noite, os outros 50

por cento com ração de ótima qualidade.

 

Quando ela está com pouco apetite na hora da ração,

muda-se a maneira de oferece-la para motivá-la e não tem

erro, corre-se o risco de até ela comer ração demais.

 

........................................

 

Após degustar um prato ante o qual ela fez um pouco

de cerimônia para come-lo, ela vem para junto da gente,

mas não é para pedir mais, tem-se a impressão de que

ela apenas quer dizer: "olha, comi tudo", e lá vai ela tomar

água.

 

- Na hora de brincar

 

Quando ela percebe que alguém está vago, chega na

frente da pessoa com a bola ou brinquedinho na boca, joga-o no chão e olha

como se quizesse dizer: "Vamos brincar?". E "cutuca" nossa

perna, se for necessário. Difìcilmente alguém resiste a esse convite.

 

Nas brincadeiras de jogar a bola para ela buscar, às

vezes, costumamos improvisar alguma tarefa mais difícil.

Monta-se uma espécie de labirinto para desafiar a sua

inteligência.

E, outro dia, a bola se acomodou debaixo duma mesa

cheia de cadeiras, em cima de uma cadeira, por baixo da

mesa, de difícil acesso. Após tentar em vão vários acessos,

ela parou e parecia que "teve uma idéia". Deu a volta na

mesa, entrou pelo outro lado e chegou na bola.

 

.............................................

 

- Na hora do passeio

 

Além de brincar dentro de casa, existe lugar fora de

casa onde ela se diverte, como no quintal, e ela passeia

muito, caminha quase todos os dias, às vezes duas vezes

por dia, no bairro, nos parques, avenidas, beira-mar e até

5 km, e também viaja.

Somando os quilômetros caminhados, no primeiro ano

de vida, eu e ela percorremos uma distância equivalente a Florianópolis a Curitiba.

 

De manhã, quando ela vê eu colocar o tênis sabe vai

ter uma caminhada e se aproxima do seu armário para a

gente tirar a trela e a guia. E daí para frente ninguém

segura a bichinha. "Adrenalina pura", e quando ela desfila

no bairro a "cachorrada" fica doida. Variamos o corte do

seu pêlo. Agora está mais a "schnauzer" e ela tem uma

postura muito bonita. Seu reboladinho também é encantador.

Parece uma dama. E como presta atenção quando a

gente fala. Ela é muito curiosa.

 

.................................

 

Outro dia, na porta de um supermercado, observei que a passagem de um senhor de boa aparência chamou à

atenção dela e, em seguida ela me olhou "de cima a baixo" parecendo que queria conferir se eu também estava bem.

..........................

 

Quando passa um avião ou um pássaro muito alto, ela chega a lançar um olhar "anti-aéreo".

 

- À noite

 

Às vezes, quando fico no computador até tarde, ela sai

de onde está, com a mãe assistindo TV, ou já na caminha,

e chega no meu canto, olha para mim, como se quisesse

dizer : "Você não vem? Já é tarde!"

 

......................................

 

De repente, lá pela madrugada, alguém entra na nossa

cama e enche a mim e à minha mulher de beijos (lambidas)

e permanece deitado entre nos dois. Principalmente quando

está com algum "doi-doi".

Outro dia, quando ela estava meio adoentada, dormiu a

noite inteira na nossa cama e quando, lá pela meia-noite

desceu para a caminha dela, foi apenas para buscar o brinquedinho

para também passar a noite ao nosso lado. Pensando bem,

o brinquedinho preferido entre outras coisinhas é, pràticamente, uma das suas poucas posses.

Mas ela tem o nosso amor, sobretudo.

 

...........................................

 

Quando a gente volta para casa

 

Só vendo para crer, a alegria e emoção dela quando

volta alguém para casa. Quando a ausência foi à noite por

algumas horas, ela chega às lágrimas, mas acho que não é

de desespero, acho que é de alegria e emoção, pois

sempre se cuidou do detalhe da solidão do animal.

Até agora tentamos seguir o manual no referente a

deixar o animal na solidão. Nunca ficou por muito mais que

quatro horas sòzinha. Mas toda vez que se volta, a emoção

é grande.

 

Parece inesgotável a capacidade do animal de se

alegrar e emocionar.

 

...............................................

 

Quando ela ganha um presente

 

Quando ela ganha um presente, pega-o na boca e sai desfilando, abanando o rabo. E assim fica desfilando com

um andar gracioso, meio rebolando e abanando gentilmente

o rabo enquanto a gente fica falando: "desfila, desfila" e não

para enquanto estiver dizendo isso.

 

......................................

 

Mas quando se entrega um objeto qualquer a ela, a

coisa é um pouco diferente. Ela se transforma numa

guardiã feroz dele. Muitas vezes é necessária uma boa

negociação caso o objeto for nosso, apenas emprestado

a ela, para reavê-lo logo. Caso contrário ela o cede

tranqüilo após certo tempo e com bons argumentos.

 

.......................................

 

Não admite discussão entre os familiares

 

Realmente, surpreendente, pelo menos eu nunca tinha

visto um comportamento assim da parte de um cão.

 

Quando eu ou minha mulher levantamos a voz até certo

nível, fruto de um debate sobre algum assunto que gerou

dúvida, imediatamente ela sai do local onde está, no sofá,

ou outra sala, mesmo mais afastado, vem correndo e se

posiciona entre os dois discursantes, encara o que ela supõe

o mais rival, late a toda vez que se abrir a boca para falar

nesse nível, e só para se a gente "baixar a bola" para valer.

Depois, uma vez restaurada a calma, se dirige a um dos

contendores e lambe(beija) seus pés, e a outro

aplicando-lhe uma leve mordida.

E, mais tarde, sabendo que um cão reconhece apenas

um dono, descobri a quem ele protege. Numa manhã,

durante o café, eu e minha mulher nos desentendemos um

pouco sobre os petiscos que se pode dar a ele, no caso o

queijo, de boa qualidade, não muito gordo, que ele gosta

muito. Eu, embora a favor do bom gosto dele, levei uns

latidos "na cara" e ele se refugiou entre as pernas da minha

mulher sentada na cadeira.

 

...........................................

 

Como ela presta atenção

 

Quando eu tento dar uma explicação para ela, ela me

encara com aqueles olhos castanhos, gira a cabeça para

um lado, depois para outro, para melhor tentar me escutar

ou entender.

 

Pode parecer exagero, mas quando alguém diz aquela

frase se referindo a algum animal: " só falta falar", tem fundamento.

A Bebel chega a balbuciar como se tentasse falar,

quando quer chamar a nossa atenção para algo ou quando

está aborrecida, responde com murmúrio, parecido com

rosnar, que vai se repetindo enquanto a gente também

responder, como se fosse um diálogo.

 

Ora, se entende o seu nome, deve entender também outras palavras.

"Vai tomar água"(Ela vai).

"Vai lá na mãe"(Ela vai).

"Vai lá no outro lado"(Ela dá a volta na casa).

"Onde está o balão"? ( E ela olha para cima

"Onde está a formiga?"(Outro dia se coçou na pata).

"Vai buscar a bola"(Ela traz a bola).

"Vai buscar o brinquedo"(Ela traz o brinquedo).

"Vai lá na Fabiana"(Ela arrasta a patinha na porta fechada do

quarto da Fabiana).

 

.............................................

 

Na hora de "bater um papo"

 

Quando quer "bater um papo" com alguém

bate na porta, arrastando uma patinha na mesma.

Ela insiste até abrir.

 

.........................................

 

Seu faro e ouvido

 

O faro e o ouvido do cão, como já se sabe, supera o ser

humano de longe. Quantas vezes sou avisado por ela que estacionou uma carro na frente da nossa casa ou foi aberto

o portão do jardim. Fiquei surpreso quando voltei com ela

duma caminhada e ela não descansou na entrada do jardim

como era costume, e sim disparou para dentro de casa.

Só entendi depois quando, dentro de casa, vi que tinha

chegado minha nora.

Da rua e do local de entrada do jardim não havia

condições de visualizar a presença de alguém pois a casa

e sua porta de entrada ficam mais altos, e tudo que orientou

o cãozinho foi apenas o faro que desde uma distância de

uns 40 metros identificou a pessoa.

 

.......................................

 

O dia que magoaram a Bebel

 

Verão de 2009. As leis humanas não permitem cachorro

na praia. Mas depois de procurar, achou-se uma praia

pràticamente deserta. Após desembarcar do carro, Bebel

disparou, correu feito uma lebre, pela areia da praia, numa

alegria sem fim.

No local escolhido para se acomodar na areia, ela

começou a cavar, cavar, até fazer um buraco onde ela quase

cabia dentro. Alguem comentou que parecia que ela queria

chegar no outro lado da Terra, Japão.

Parecia uma criança feliz brincando na areia, até que ela

sentiu a aproximação de outros caninos: um pitbull e seu

auxiliar de outra raça. Ela parou de cavar, respirou fundo,

sentiu o clima ficar mais pesado, mas como, por enquanto

os mesmos estavam na coleira, voltou a se acalmar e

continuou cavando.

Porém, em seguida, o dono soltou os cães da coleira

e quando Bebel viu o grandão desfilando com um caminhar

que parecia até desafiar o próprio mar, ficou muito

preocupada e aguardou quieta dentro do seu buraco na

areia. O pitbull se aproximou dela por trás, deu aquela

"fuçada" por trás, com o que ela se assustou, tentou se

esquivar e quase foi atingida por uma jato de urina do

malcriado levantando a perna trazeira sobre ela.

Estupefata e bastante magoada saiu do seu precário

abrigo e "bateu em retirada" no sentido praia-estrada,

olhando em sua volta e para tras para se assegurar de

que os malandros ficariam para tras, mas sempre com um

ar de bastante mágoa, até alcançar um local mais alto, já

fora da areia onde desconhecidos estavam descansando

e lhe deram apoio moral.

 

Ela influenciou nas nossas vidas

 

Ela é muito simpática também. É muito companheira.

Não podemos imaginar nossa vida sem ela. Eu, desde o

começo tenho sido considerado o mais apaixonado, briguei

muito por ela, não deixei ela ficar sozinha até completar

quase um ano de idade. Nem todos concordaram comigo plenamente, achavam que eu era preocupado demais com

ela. Mas hoje, todos estão apaixonadíssimos por ela e

cada vez mais, é incrível a mudança na minha mulher que,

no início, era de forte opinião em que fossem mantidas

algumas restrições quanto ao uso das dependências da

casa pela cachorra.

Hoje, ela é a "dona do pedaço" ela pode sentar e deitar

onde quiser e todos apenas exclamam: "ela é um amor".

 

"Após esse tempo de convivência com o nosso cãozinho,

sinto que estou olhando a natureza de um modo diferente."

 

Quando vejo uma cobra atravessando a estrada, não

sinto aquele ímpeto de eliminar aquele inimigo do homem.

Quando vi outro dia, na TV, no "Animal Planet", um

defensor dos animais selvagens segurando uma arranha,

e deixando ela percorrer todo seu corpo, me surpreendi

com um sentimento diferente, sem medo, tentando ver

naquele bicho algum ponto não assustador, mas sim, algo

que me compadeça dele.

 

E os outros, o que acham

 

Há quem diga que o animal não é rico, vive no limite da

miséria. Eu diria, como animal doméstico, mesmo

companheiro do homem é totalmente dependente dele.

Os que vivem soltos na natureza, os lobos, por exemplo,

tem apenas a liberdade a mais.

 

Eu acho que se queremos o cachorro como nosso objeto

de estimação, devemos tentar, ao menos ser o menos

egoísta possível, não lhe impingir ainda mais sofrimento

além do que já tem pela situação de dependência, não

mutilá-lo para satisfazer o nosso gosto, como cortar-lhe o

rabo, etc.

 

Tudo isso vejo como tentativas de querer transformar

o cachorro em gente, o que é impossível, acho que devemos respeitar sua natureza animal, e que ele nem faz questão

de ser humano, está contente como animal, quer apenas o

nosso amor incondicional.

Também nem precisa de roupa pois já nasce vestido.

 

Se a teoria da evolução está com a razão, nos

precisamos da roupa pois a perdemos há milhôes de anos

atrás. Começamos com a folha de parreira mas não cobriu

toda nossa feiura, então tivemos que pegar emprestada a

lã do carneiro, etc.

A tosa também deveria ser encarada com mais critério

porque também lhe causa "stress".

 

.......................................................

 

Deixá-lo bonito, cheiroso, levá-lo para passear, dar-lhe

as melhores rações, e tudo mais que estiver ao alcance,

ao ponto de dar inveja ao ser humano mais pobre, é pouco

pois, como o próprio nome diz "vida de cachorro não é fácil"

por melhor que seja.

 

O ser humano pode evoluir na sua posição, dependendo

às vezes apenas do seu esforço, e outras, é lógico, também

de sorte, mas o animal por melhor cuidado que seja, por

mais que se queira ajudá-lo a progredir e subir na vida, tem

suas limitações que só pode ser compensado com um

grande amor por ele. E ele nos ama muito também.

 

Segunda a pesquisa científica, a amizade entre homem e cachorro

é a maior amizade entre espécies diferentes neste planeta.

 

Ele sendo um animal que há uns 40.000 anos já vive em

harmonia ao lado do homem, de um modo geral, se ele se

torna agressivo, geralmente é porque falhamos em algum tratamento. Pois se um animal selvagem como o lobo

morde não é culpa dele mas sim de quem se aproximou indevidamente dele".

 

.....................................

 

Hipocrisia

 

O que é hipocrisia? Falsidade. "Tapar o sol com a

peneira". Dizer que se é uma coisa quando se sabe que não

se é. Alguém dizer que está defendendo o boi, opondo-se à

"farra de boi", e matá-lo aos milhares no dia seguinte para

comê-lo.

Eu não estou com isso dizendo que admito a "farra do

boi", pelo contrário, estou tentando ter consciência de não

exploração dos animais, tirar a máscara e admitir que

estamos enganando e que precisamos enganar a nos

mesmos e a todo mundo para sobreviver.

Me causa certo desconforto essa nossa hipocrisia.

Em perguntas feitas a famosos, vi alguém responder

que detestava a hipocrisia.

O que fazer? Não conseguimos escapar da hipocrisia

pois temos que acalmar nossa consciência. Pela própria lei

da natureza parece que para uns sobreviverem outros tem

de ser sacrificados. E esse sacrifício parece que é também

padrão nas crenças. Doar alguma coisa para se ter a

garantia da sobrevivência e até salvação. Desde que o

homem começou a pensar.

 

Como conviver com a situação. É preferível buscar, na

medida do possível, baixar a falsidade, a hipocrisia, não

negar que estamos depredando a natureza do jeito como

vivemos, admitir que estamos sacrificando diariamente

outras espécies para nos alimentarmos, e quem é

vegetariano está colaborando muito com a natureza.

A espécie canina, é até cúmplice nosso, mas merece um desconto pois por natureza é carnívoro enquanto nós não.

Eu sendo ser humano, e não podendo escapar das suas fraquezas, tenho que conviver como humano caso contrário

a sociedade me excomungará. E, ainda bem que a

democracia predomina atualmente no nosso planeta tanto

para suas vantagens como para as desvantagens, pois num sistema totalitário, onde até raças humanas são

exterminadas, imaginem espécies inferiores, e eu inclusive,

já teria sido expulso da humanidade por defender "outros

departamentos".

 

O ser humano é uma grande maravilha da natureza, não

se pode negar isso e provàvelmente os animais de todas as espécies nos admiram e até invejam.

A ciência diz que uma certa espécie de macacos nos olha

com admiraçâo como se quisesse dizer: "tu conseguistes!"

Por outro lado, há até alguém que diz que o ser humano

seria a grande falha da natureza uma vez que ele se tornou

o grande predador dela.

 

Outro dia ouvi um biólogo dizer que talvez a espécie

humana é uma espécie que não deu certo. Alguém vai achar

isso absurdo, mas para a natureza podemos admitir isso,

a mãe natureza deve estar chorando pelo mal que o filho

homem lhe fez mas tenho certeza que não tem a mesma

queixa da maioria das outras espécies.

 

.........................................

 

Dicriminação

 

Ouço muito dizer: "Eu não quero cachorro na mesa", "se

eu pisar em cocô de cachorro jogo o sapato fora", "cachorro

não pode ir à praia", etc.

 

Tudo bem, existem convenções de todo tipo na vida

humana e uma delas é no que se refere ao cachorro na praia,

que são convenções locais que decidiram que não é

interessante cachorro ir à praia pois pode contaminar a areia fazendo nela suas necessidades.

 

Poderia-se questionar por que não selecionar entre os cachorros educados e os mal educados. Tudo bem. Mas

está-se vedando a aproximação ao mar de animais que

talvez também teriam direito a chegar perto do mar. Não

há dúvida que é um antropocentrismo. (para quem não

conhece o vocábulo, só os antropóides tem permissão,

ou seja os descendentes de macaco).

 

A maioria da humanidade se sente humilhada sobre essa descendência, mas embora queira se dizer que evolução é

uma teoria que de um modo geral os religiosos tradicionais

não olham com bons olhos, também acho que permanecer

no seu orgulho humano, e não beijar um animal, também

seria falta de cristianismo porque Cristo até lavou e beijou

pés de pessoas.

 

Às vêzes esta frase se faz ouvir: "- Eu não te falei,

levastes uma mordida , cachorro não é tudo aquilo que você

fala. Cachorro é cachorro!".

 

Cachorro é cachorro, não há dúvida, é da espécie canina,

mas acho que humanos "mordem" tanto quanto ele. A

verdade disso é a famosa frase de Nelson Rodrigues:

"Porque me odeias se nunca te ajudei!".

 

Lembro que certa vez queria defender um senhor, diretor

dum pequeno colégio, portanto, culto, e ele me interpretou

errado e se voltou contra mim. A mesma coisa o animal, se

ele me interpretar diferente corro risco de levar mordida.

 

Segundo a teoria da evolução, somos descendentes do macaco, que é um animal travesso, e se fossemos

descendentes do cachorro, por exemplo, seríamos mais

sérios, menos corruptos? Ouví uma frase popular que

"o macaco se vende por uma banana".

Aí outro que não é tão da mesma opinião responde:

" E cachorro se vende por um osso!"

 

Tudo bem, não vamos brigar.

 

.....................................

 

Se o homem distingue entre o bem e o mal porque

pratica mais maldade que os animais?

 

Segundo os entendidos, o animal apenas distingue entre

o forte e o fraco e não entre o bom e o mau como o homem.

Mas quando vejo certa maldade humana, certas

crueldades, como seqüestrar uma criança para vender

órgãos, procurando benefício material ùnicamente, sem ligar

para o sofrimento alheio, parece que distingue menos que

os animais e nem cabe dizer que são verdadeiros animais

para não ofender os animais.

 

Chamar alguém de quadrúpede pode ser até elogio, pois

olhem o andar da girafa, veja se tem alguma modelo com

andar mais bonito, a pose que minha cachorrinha faz quando

senta na poltrona depois de uma caminhada, uma verdadeira

dama e com a maior naturalidade, sem precisar de muita

regra de etiqueta.

 

E aquele seu caminhar lento, no meio da escuridão,

parece um leão se aproximando.

 

Se o ser humano sair de sua bitola e olhar mais em

volta vai ver que está vivendo muitas ilusões.

 

Quem veio antes deveria ter mais direito. O homem

branco não quis nem saber quando se tratava do índio,

imagine dar bola para um animal como o cachorro mesmo

que ele exista há 120 milhões de anos, mais do que o ser

humano e há 40 mil anos já é companheiro do homem.

 

A espécie humana, tendo herdado e desenvolvido um

cérebro privilegiado, desenvolveu técnicas, tornou-se

altamente civilizado, instituiu um sistema que protege seus

direitos enquanto, direitos das outras espécies e da própria natureza são na verdade menos defendidos e geralmente

por apenas alguns focos de resistência, debilmente

espalhados pelo planeta.

 

Uma espécie de antropocentrismo tomou conta

 

......................................

 

Mas um cãozinho veio para me fazer pensar em tudo isso.

 

Errar é humano, perdoar é canino

 

- Bebel foi um presente maravilhoso -

 

Quando eu partir desta, gostaria de adormecer em casa

ao som dos latidos dela.

 

Quero ouvir seus latidos ao entardecer. Quando ouço

latidos sinto a natureza se alegrando e minha alma se tranquilizando.

 

....................................................................................